Mais de 65 mil professores da rede pública foram afastados por transtornos mentais em 2025, segundo o Ministério da Previdência Social. O número representa crescimento expressivo em relação aos anos anteriores e coloca a saúde psicológica do docente no centro do debate educacional em 2026 — um problema que vai muito além do indivíduo.
Os números que não podem ser ignorados
Os dados do Ministério da Previdência Social mostram que os transtornos mentais e comportamentais são uma das principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. Entre todos os trabalhadores, foram mais de 546 mil afastamentos por questões de saúde mental em 2025 — crescimento de 15% em relação a 2024.
No grupo dos professores, o cenário é igualmente preocupante. Uma pesquisa do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) revelou que 62% dos professores da educação básica relataram sintomas frequentes de estresse, ansiedade ou depressão entre 2022 e 2023. No estado de São Paulo, foram registrados 33.309 afastamentos de professores efetivos por transtornos mentais em 2025 — e só no primeiro trimestre de 2026 esse número já chegava a 6.256, segundo a Secretaria da Educação estadual.
Burnout: o diagnóstico mais comum entre docentes
A síndrome de Burnout — caracterizada por esgotamento emocional intenso, sensação de distanciamento dos alunos e baixa percepção de realização profissional — é o transtorno mais diagnosticado entre educadores. As principais causas apontadas por especialistas são:
- Sobrecarga de trabalho e jornada excessiva;
- Salários defasados e falta de reconhecimento;
- Condições precárias nas escolas e falta de infraestrutura;
- Violência escolar e conflitos com alunos e responsáveis;
- Pressão constante por resultados em avaliações externas.
Segundo o Censo Escolar 2025 divulgado pelo MEC, 78,8% dos cargos docentes na educação básica são ocupados por mulheres — grupo historicamente mais afetado pela dupla jornada de trabalho na escola e responsabilidades domésticas.
O que a Lei 14.819/2024 garante ao professor
Sancionada pelo presidente Lula em 16 de janeiro de 2024, a Lei 14.819/2024 institui a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. A lei vai além dos alunos: ela protege explicitamente professores, gestores, funcionários, pais e responsáveis.
Entre os direitos garantidos pela legislação:
- Ações conjuntas entre as redes de educação, saúde e assistência social para apoio psicossocial;
- Protocolos claros para situações de crise emocional dentro das escolas;
- Capacitação de professores e gestores para identificar sinais de sofrimento psíquico;
- Acesso da comunidade escolar aos serviços do SUS (Sistema Único de Saúde);
- Campanhas de informação e prevenção sobre saúde mental no ambiente escolar.
A lei representou uma conquista importante da categoria. Especialistas alertam, porém, que a implementação efetiva ainda avança lentamente em muitos municípios brasileiros.
O que muda na prática para o professor
Com a Lei 14.819/2024 em vigor, o professor tem o direito de exigir que sua escola disponha de protocolos de apoio emocional e de acionar o conselho municipal de educação caso esses mecanismos não existam. Redes escolares que ainda não criaram canais de escuta ativa, grupos de suporte ou parcerias com o SUS estão em descumprimento da lei.
Se você sentir sintomas persistentes de esgotamento, ansiedade ou depressão, procure o serviço de saúde do servidor da sua rede. Na maioria das redes públicas, afastamentos por transtorno mental garantem licença remunerada. Conhecer a lei e seus direitos é o primeiro passo para cuidar da saúde sem abrir mão da carreira.
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