Em 2025, o Brasil registrou 65.123 afastamentos de professores da rede pública por transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O número representa uma alta de 97% frente ao levantamento da Fundacentro que monitorou o período de 2018 a 2023. Os dados confirmam o que muitos professores já vivem na pele: o adoecimento psíquico passou a ser a principal causa de afastamento da categoria — superando, pela primeira vez, as doenças vocais, que historicamente ocupavam esse lugar.
Números que revelam uma crise real
Levantamento do INEP publicado entre 2022 e 2023 mostrou que 62% dos docentes da educação básica relataram sentir com frequência estresse, ansiedade ou depressão. O Instituto Península (2022) apurou que 84% dos professores se sentem emocionalmente exaustos. Estudo da Fiocruz (2023) identificou que sete em cada dez docentes apresentam sinais de depressão ou ansiedade.
Para professores da educação infantil o cenário é ainda mais agudo: pesquisa da Unifesp apontou que um em cada três profissionais dessa etapa convive com a Síndrome de Burnout — quadro clínico de exaustão total, despersonalização e sensação de ineficácia que inviabiliza o trabalho em sala de aula.
O que está por trás do adoecimento docente
Os estudos apontam um conjunto de fatores que, somados, criam terreno fértil para o colapso emocional:
- Sobrecarga de trabalho, com turmas numerosas e múltiplos vínculos empregatícios;
- Salários defasados, gerando insegurança financeira crônica;
- Exposição à violência escolar — verbal, física e virtual — sem suporte institucional;
- Pressão crescente por resultados nas avaliações externas (SAEB, IDEB);
- Falta de apoio da gestão e isolamento profissional.
A Fundacentro, instituto vinculado ao Ministério do Trabalho, registrou que entre 2018 e 2023 os transtornos mentais subiram ao topo das causas de afastamento entre professores. Em setembro de 2025, a CONTEE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino) afirmou em nota que a saúde mental dos educadores "está em colapso" e cobrou do governo federal um programa nacional específico para o tema.
Direitos do professor afastado por saúde mental
O professor que precisar se afastar por transtorno mental tem direito ao benefício por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) do INSS. Os passos básicos são:
- Reunir laudos e receituários com o CID correspondente ao diagnóstico;
- Comunicar a secretaria de educação ou o RH da escola;
- Solicitar o benefício pelo portal Meu INSS ou pela Central de Atendimento 135.
Servidores efetivos contam ainda com o SIASS (Sistema de Atenção à Saúde e Segurança do Servidor Público), que realiza perícias e encaminha para tratamento. Verifique com o sindicato da sua rede se há atendimento psicológico gratuito ou convênios disponíveis para a categoria.
O que precisa mudar para além do afastamento
Pesquisadores e entidades sindicais são unânimes: afastar o professor adoecido resolve o caso individual, mas não a raiz do problema. As medidas mais citadas como necessárias incluem reduzir a carga horária em sala, ampliar o tempo remunerado de planejamento, garantir equipes multiprofissionais (psicólogos e assistentes sociais) nas escolas e rever os modelos de avaliação de desempenho para que não se tornem mais um fator de pressão sobre o docente.
Na prática, o professor que identificar sinais de esgotamento — irritabilidade constante, insônia, dificuldade de concentração, vontade de abandonar a profissão — não deve esperar chegar ao limite. Buscar apoio médico cedo, comunicar a gestão e acionar o sindicato são os primeiros passos. O sofrimento docente não é fraqueza: é reflexo de condições de trabalho que precisam urgentemente de atenção e de políticas públicas concretas.




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