Quase três em cada quatro professores que ensinam Física nas escolas públicas brasileiras não possuem licenciatura específica na disciplina. É o que indicam dados do Censo Escolar 2024, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). O problema, batizado de "apagão docente", não se limita à Física — ele é estrutural e afeta praticamente todas as áreas do currículo, comprometendo a qualidade do ensino em todo o país.
O que os números do INEP revelam
Segundo o Censo Escolar 2024 do INEP, apenas 27% dos professores que lecionam Física no Brasil têm licenciatura na área. Em Matemática, o índice chega a 67,5% — o que ainda significa que quase um em cada três alunos aprende a disciplina com um docente sem formação específica nela.
No conjunto do ensino fundamental (6º ao 9º ano), o INEP aponta que 59,9% das aulas são ministradas por professores com formação adequada à disciplina que ensinam. No ensino médio, esse número sobe para 67,6%. As regiões Norte, Nordeste e o interior do Centro-Oeste concentram os piores índices — e estados do Mato Grosso e vizinhos também sentem a escassez, especialmente nas disciplinas de ciências exatas e da natureza.
Por que faltam professores com formação específica
O problema tem raízes na baixa atratividade da carreira docente. De acordo com estudo do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior), publicado pelo Jornal da USP, o Brasil pode chegar a 2040 com um déficit de até 235 mil professores na educação básica, caso o ritmo de formação não mude.
Um fator que agrava a crise é o abandono nos cursos de licenciatura. O Censo da Educação Superior registra que 58% dos alunos de graduações voltadas à docência deixam o curso antes de se formarem. A remuneração considerada baixa, a falta de infraestrutura nas escolas e o desgaste emocional da profissão são os motivos mais citados por quem desiste.
Outro agravante: profissionais formados em Física, Química e áreas correlatas frequentemente preferem atuar no setor privado — onde os salários costumam ser mais altos — a seguir para a sala de aula da rede pública.
O que o governo federal está fazendo
Em resposta ao diagnóstico, o governo federal lançou a Política Nacional de Indução à Docência na Educação Básica, o programa "Mais Professores para o Brasil". As principais ações incluem uma bolsa mensal de R$ 2.100 para professores iniciantes que atuam em escolas públicas e uma pós-graduação gratuita de 360 horas, com investimento previsto de R$ 1,68 bilhão até 2026.
Outra frente é a Prova Nacional Docente (PND), aplicada em 2025 e em 2026 com edital publicado. O objetivo é formar um banco de candidatos certificados por área do conhecimento, facilitar a contratação nas redes de ensino e incentivar a qualificação docente nas disciplinas com maior escassez.
O que isso muda na prática para o professor
Para quem já possui licenciatura em Física, Química, Matemática ou Biologia, o cenário de escassez tem uma consequência direta e positiva: esses profissionais estão entre os mais procurados nas redes estaduais e municipais de todo o Brasil. Estados que realizam concursos públicos para o magistério têm dado prioridade ao preenchimento de vagas nessas áreas, e a tendência é de que a demanda se mantenha alta nos próximos anos.
O déficit também deve pressionar as exigências de habilitação. Redes que hoje ainda toleram a docência sem licenciatura específica na disciplina tendem, nos próximos anos, a endurecer esse critério — reforçado pelo novo Plano Nacional de Educação (PNE 2026-2036) e pelas diretrizes do STF. Quem investe em formação continuada e segunda licenciatura sai na frente nesse cenário.




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